|
Para ser normal, fique doente de vez em quando
Lúcio Pakter, Filósofo Clínico
O neurologista Oliver Sacks trabalhou diversas vezes com a
síndrome de Tourette, manifestação que provoca tiques, trejeitos, um
comportamento socialmente grotesco. Assim como em outros estudos,
Sacks concluiu que muitas vezes a pessoa precisa de sua doença para ser
normal.
Muita gente ficaria sem graça sem suas artrites ou a constipação de
final de semana; as enxaquecas, então, costumam acontecer com uma
pontualidade surpreendente. Quanta chatice, quanta compota na casa da
sogra, quantos programinhas sonolentos a dorzinha de cabeça já poupou?
Assim como alguns medievais apelavam a uma flagelação de si
mesmos com chibatadas e reclusão, o mesmo um câncer pode fazer por
nós... matando aos poucos, com garantias de sofrimento e expiação. Mas
em outras vezes um câncer será somente um câncer.
Quanta culpa no mundo já não foi abrandada por infecção urinária?
E, neste sentido, a doença é parte importante da normalidade. Ela
resolve problemas, ajuda a viver em épocas difíceis, é didática e, em parte
considerável dos casos, talvez não devesse ser debelada a socos
farmacológicos.
Vamos tomar como exemplo um acidente vascular; ele pode dar a
chance ao indivíduo de sair de uma ardilosa manipulação familiar que o
aprisionava, pode fazer com que a pessoa pare para repensar a vida (uma
vez que de outra maneira isso não aconteceria), pode simplesmente trazer
coisas como férias ou pode, tão somente, ser um lamentável episódio
vascular. Não são raros os que elogiam um acidente vascular como o
conselheiro que colocou a vida em dimensões melhores.
O ensinamento é que a doença não é necessariamente um mal, algo
abominável a ser caçado com tomografias e antibióticos quando evidencia
os primeiros sintomas.
Olha, deveriam existir clínicas especializadas em deixar a pessoa
doente: uma amigdalite, um prurido que fosse. Muitas pessoas ficariam
felizes e usariam suas comichões para desde faltar ao trabalho até o
rompimento de uma relação difícil.
Estar gripado, ter uma diarréia leve de vez em quando, uma febre de
inverno, apendicite ou alguma cirurgia corretiva, tudo isso pode ser um
modo de ser saudável. Poderia ser uma recomendação do Ministério da
Saúde.
É oportuno considerarmos também que muitas vezes o sofrimento
ensina apenas a sofrer; para alguns, tarefa inútil.
Não tivesse caído doente, Nietzsche provavelmente teria seguido a
enfermagem; Schubert talvez nunca tivesse retomado seu trabalho como
preceptor dos Esterházy, que lhe trazia imenso bem, caso não tivesse
combalido adoentado; Balzac teria se casado com Éveline Hanska caso já
não estivesse seriamente abalado, como contam as boas e as más línguas?
Foi a enfermidade que propiciou a José de Alencar conhecer Londres, Paris e Lisboa em 1876. A lista é longa. Por isso, terminamos com Arthur
Rimbaud, exímio freqüentador de listas de doentes famosos, Arthur teve um
câncer que o levaria a aceitar a fé católica pelas mãos da freira Isabelle.
Enfim, nos brindes, por favor, não desejemos somente saúde às
pessoas, mas alguma doença também.

Veja também...
Vivemos em Cativeiro? Lúcio Pakter Responde...
|