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Ergonomia Anima, 30K


Leonardo de Souza

Dicionário Aurélio Eletrônico: 
Conjunto de estudos que visam à organização metódica do trabalho em função do fim proposto e das relações entre o homem e a máquina.


Para a quase totalidade dos usuários de informática, a utilização do microcomputador como ferramenta de trabalho significa não mais que sentar diante da máquina, ligá-la e executar suas tarefas. Poucos, no entanto, têm conhecimento de que uma cadeira inadequada, um monitor com luminâncias além do limite aconselhável, ou mesmo a falta de um apoio para a mão na utilização do mouse podem ser sinônimo de desconforto e até mesmo de problemas físicos.

  

 

Regiões mais afetadas

PESCOÇO  
Em média, a cabeça de um adulto pesa cerca de 5,5 quilogramas. Tem praticamente as mesmas dimensões de uma bola de boliche. Quando movimentada diretamente sobre os ombros durante uma sessão de trabalho, músculos do pescoço ajustam-se com facilidade e suportam seu peso. Entretanto, quando inclinada muito à frente ou para trás, os músculos esticam-se ou se contraem, causando dores incômodas como cãibras e fadigas. Por isso, a posição correta do monitor é essencial para reduzir a tensão nos músculos do pescoço.

As recomendações são para que o topo da tela esteja no mesmo nível dos olhos, o que a mantém na posição correta, ou seja, na vertical. O monitor colocado muito para baixo, o que é comumente observado, força a cabeça para a frente. Esta posição provoca uma tensão desnecessária no pescoço. recomenda-se elevar o monitor, colocando-o sobre o gabinete (em desktops horizontais) ou então através de um suporte regulável. Em último caso, listas telefônicas antigas podem ajudar.

No caso de o usuário utilizar lentes bifocais, o monitor numa posição mais baixa ajudará a visualização através da parte inferior da lente, sem que para isso seja necessário inclinar a cabeça para trás.

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OLHOS  
Sem dúvida, uma das maiores reclamações dos usuários é a fadiga crônica dos olhos. Pressão na vista, olhos ressecados, lacrimação e visão são sintomas comuns. Embora nem sempre seja possível eliminar completamente todos estes desconfortos, simples mudanças na estação de trabalho podem significar redução dos inconvenientes. O principal fator na contribuição para o ressecamento dos olhos resulta da redução do piscar de olhos durante a visualização do monitor. O olho humano limpa-se e refresca-se por si mesmo, automaticamente, várias vezes por dia. No entanto, o ato de concentrar a atenção durante muito tempo no brilho do monitor causa uma diminuição significativa no piscar de olhos. A superfície da córnea resseca, resulotando em irritação, vermelhidão e cansaço dos olhos. Fazer paradas freqüentes enquanto se utiliza o computador e piscar os olhos ajudam a relaxar e refrescar a vista.

Outro fator que contribui para a fadiga dos olhos resulta da exaustão muscular. Pequenos músculos são responsáveis por mudanças no formato de suas lentes, para permitir a aproximação e o distanciamento da visão. A menos que estejam relaxados, esses músculos produzem ácido láctico, que provoca fadiga. Olhar através da janela ou da sala faz com que os músculos se afrouxem e os olhos recebam sangue oxigenado, removendo assim o ácido láctico.

REGIÃO LOMBAR  
Cadeira inadequada é a maior causa de dores nas costas. O encosto da cadeira precisa estar posicionado exatamente na curvatura lombar, fazendo com que a coluna se mantenha apoiada. O encosto também deve ser flexível.
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Recomendações sobre o mobiliário

CADEIRA  
Altura regulável e em que o encosto fique posicionado exatamente na curvatura lombar. O encosto também tem de ser flexível, não permitindo que o usuário escorregue para trás, mas que acompanhe o movimento do tronco. É importante que os pés estejam firmes ao chão. Caso contrário, o usuário deve providenciar um suporte para eles.

MESA  
É preciso que tenha regulagem independente de altura para monitor e teclado. A borda superior da tela tem que estar na altura dos olhos e o teclado coincidir com a altura do cotovelo.

TELA ANTI-REFLEXIVA  
88 por cento dos monitores apresentam nível de reflexão acima do aceitável. Ora os olhos se habituam com o claro, ora com o escuro, o que provoca o cansaço da vista. Aconselha-se a utilizaçao de tela de
nylon fina importada.

APOIOS PARA PULSO E PALMA DA MÃO  
Se a mesa não dispuser de apoio para pulso, deve ser providenciado um. De preferência de espuma. O pulso não pode ficar em posição quebrada quando da digitação - uma das agravantes da tenossinovite. No manuseio do
mouse é necessário um apoio de mão, também para manter o pulso neutro.

SUPORTE PARA DOCUMENTO  
Deve ficar preso ao monitor. A alternância do foco, ora 50, ora 70 centímetros, cansa a vista.

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O responsável por elaborar soluções para trazer melhorias ao cotidiano das pessoas em seu local de trabalho se chama ergonomista. É este profissional, com formação em design, que, juntamente com engenheiros, trata de desenvolver novos mecanismos e conceitos para evitar as conseqüências do planejamento incorreto do trabalho na saúde das pessoas. No caso da informática, é ele quem se preocupa com detalhes que podem parecer sem muita importância - como o formato do teclado, um apoio para os pulsos do digitador ou um suporte para manter os pés firmes ao chão - mas que são fundamentais para o bem estar do usuário.

Segundo estudo realizado pelo Departamento de Ergonomia da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, a estação de trabalho ideal, de acordo com os conceitos de ergonomia, é que proporciona o máximo de conforto e segurança para o usuário. A chave para obtenção do conforto é fazer com que o corpo se mantenha sempre apoiado e relaxado, em posição natural, quando se estiver utilizando o computador. Isso significa que as atividades executadas pelo usuário não devem forçá-lo a uma posição desajeitada ou que promova estresse. A estação de trabalho deve estar de acordo com os padrões de movimento da pessoa.

Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e estresse cumulativo provenientes da utilização de computadores têm sido alguns dos problemas mais comumente enfrentados por trabalhadores nos dias de hoje. Os micros se tornaram peças indispensáveis em inúmeros segmentos do mercado. Mas as precauções tomadas para evitar os males decorrentes da utilização exagerada dessas máquinas não têm acompanhado o ritmo de seu emprego.

Pesquisas na área de ergonomia têm demonstrado que o design inadequado não só do microcomputador mas também do mobiliário em que o aparelho está inserido provoca desconforto a tal ponto ao trabalhador que diminui sua capacidade produtiva. O usuário, quando não dispõe de condições apropriadas para realização do trabalho de modo seguro e confortável, tende a apresentar problemas principalmente no pescoço, na região lombar, nos olhos e nos tendões das mãos e dos pulsos. Dados do Ministério da Saúde revelam que, nos últimos anos, dos trabalhadores licenciados por motivo de saúde, 20% sofrem de problemas músculo-esqueléticos, ou seja, conseqüências do (mau) uso da informática.

A empresa carioca Ergon Projetos, que há cinco anos desenvolve soluções voltadas para a informática, realizou trabalhos para empresas de grande porte e alcançou conquistas importantes para os empregados, como implantação de pausa a cada hora trabalhada. Na Telerj, por exemplo, foram estabelecidas áreas de relaxamento e ginástica de pausa. Na Golden Fone e no Banco Nacional introduziram-se tratamento acústico e correção da iluminação direta. Também foi projetado o equilíbrio correto das luminâncias e se usaram cores no ambiente de trabalho.

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Outra conquista da Ergon Projetos foi o aquecimento da demanda por mobiliário ergonômico no Brasil, um mercado que antes de 1.991 pouco exigia com relação a esse aspecto. Naquele ano, a empresa projetou uma mesa ergonômica e dinâmica para a informática, com regulagens independentes e contínuas nos planos vertical e horizontal para a tela e teclado - características que permitem alternância postural do usuário e possibilitam que os pés fiquem apoiados no chão. Na época, o único fabricante que se interessou em promover as modificações, até então inexistentes em produtos nacionais, foi a Zagros. Os outros diziam não haver mercado para a mesa ergonômica. Após a produção das mesas por dois anos pela Zagros, outras três empresas produziram produtos similares, adotando o mesmo conceito adotado pela Ergon. Até o ano passado, a Zagros contabilizava mil postos instalados apenas em centrais de atendimento.

Numa avaliação dos escritórios da matriz da Shell, no Rio de Janeiro, feita pela Ergon, é possível se ter idéia de como o trabalhador brasileiro carece de condições adequadas para realizar suas tarefas. No levantamento, verificou-se que 59,9% das pessoas que utilizavam computador por mais de 80% do tempo total de trabalho apresentavam problemas de postura e de fadiga visual. A causa estava relacionada ao dimensionamento incorreto dos postos de trabalho, à exposição de fontes luminosas e à falta de conscientização dos funcionários. Dos 486 postos de trabalho levantados, 56,9% das pessoas não apoiavam os pés no chão; 90,9% das cadeiras não dispunham de encosto adequado; 88,4% tinham reflexos de luminárias e outras fontes de luz de modo inapropriado.

Em um ano, a Shell ergonomizou 219 postos de trabalho, adotou equilíbrio correto das luminárias e trocou as cores das divisórias, piso e mobiliário. A empresa encomendou ainda à Ergon um software ("Postura no Trabalho Informatizado") de auto-aprendizagem sobre a posição correta no posto de trabalho, instalando-o em rede para todos os usuários.

Para a ergonomista Venétia Santos, diretora da Ergon Projetos, o mundo assiste a uma evolução no modo de trabalho. "Hoje, o homem passa muito tempo sentado. É preciso que o mercado se adapte a essa evolução. O ser humano não está preparado para permanecer oito horas contínuas na mesma posição".Ainda na opinião de Venétia, o trabalhador vive sob constante pressão. Ela diz que por isso é necessário que se dê a ela a estrutura necessária em seu local de trabalho. "Vão forçar cada vez mais a produtividade nas empresas. O trabalhador será ainda mais exigido. Temos que econtrar uma fórmula para melhorar suas condições de trabalho, se não ele não agüenta", comenta.

Ela recomenda que para cada hora de trabalho a pessoa descanse pelo menos de cinco a dez minutos. E ressalta a importância do relaxamento. Acrescenta que cada um, no entanto, tem seu modo próprio de relaxar, como assistir à TV, ouvir música ou fazer exercícios.

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A técnica alerta para os produtos que muitas vêzes são ditos ergonoômicos, mas que na verdade não trazem o efeito esperado. Ela cita, como exemplo, cadeiras que não apresentam o encosto na altura certa. Venétia fala também das inovações nos próprios micros e periféricos, como teclados de design arrojado. Ela destaca também os track-balls. diz que o polegar é muito exigido.

As inovações para os teclados começaram a surgir para tentar combater os males que afetam números cada vez maiores de trabalhadores em centrais de atendimento, digitadores e jornalistas - profissionais que sobrecarregam os tendões em jornadas que excedem até seis horas ininterruptas de trabalho. Estes males são as Lesões por Esforço Repetitivo (LER). A tenossinovite é a mais conhecida delas. Em estágio avançado, ela pode provocar espasmos de dor que impedem que a pessoa segure até mesmo um objeto leve, como uma caneta. Os principais meios para evitar as LER é fazer exercícios com as mãos a cada hora de trabalho e utilizar um apoio para pulso nos teclados.

O problema tornou-se tão sério ultimamente que o governador do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, sancionou em agosto do ano passado uma lei (n.° 2.586/96) que estabelece normas de prevenção das doenças e critérios de defesa da saúde dos trabalhadores em relação às atividades que possam desencadear lesões por esforço repetitivo. A lei define as LER como provocadas por atividades que exigem do trabalhador, de forma combinada ou não: "a) utilização repetitiva, continuada e forçada, de grupos musculares; b) manutenção de posturas inadequadas; c) tensão psicológica decorrente do ritmo, intensidade, duração da jornada ou mecanismos do controle do trabalho; e d) fatores relacionados aos postos de trabalho, aos equipamentos e às condições de trabalho que limitam a autonomia dos trabalhadores sobre os movimentos do próprio corpo e reduzem sua criatividade e liberdade de expressão".

O designer Freddy van Camp, professor da Escola Superior de Desenho Industrial, reforça a tese de Venétia Campos em relação à importância do mobiliário para o usuário de informática. Diz que a ergonomia não deve estar apenas no computador, mas também no suporte. "O conforto no posto de trabalho não é apenas um problema de medida, postura, tipo de teclado. O computador hoje faz parte de um sistema e precisa estar inserido nele", observa.

Ele cita a questão da altura adequada da mesa. Segundo van Camp, a mesa-padrão de trabalho deve medir 75cm de altura, mas o teclado tem de estar a 68cm. "O que se fez? Produziram-se mesas de 72cm, que não atendem a nenhuma das duas recomendações, e outras de altura variável, uma boa solução mas que cai no problema do aumento do custo. Têm de ser encontradas soluções para problemas como esse", afirma.

O Próprio van Camp criou uma saída: desenvolveu uma mesa de 75cm de altura, mas com um suporte retrátil de 68cm para o teclado. "O problema é que o consumidor gasta muito com o computador, mas se recusa a pagar pouco pelo suporte adequado. então compra produtos de baixa qualidade e que não atendem a questões fundamentais", comenta.

 

Nota: Matéria originalmente publicada em CONECTA n.° 6.

 

 




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